Baía Impecável – “UMA NOVA ERA NA PRODUÇÃO DE CAMARÃO FRESCO NA EUROPA”


PAULO MARQUES, CEO DA BAÍA IMPECÁVEL, ESTÁ A REVOLUCIONAR A AQUICULTURA EM PORTUGAL COM A INSTALAÇÃO DA PRIMEIRA UNIDADE DE PRODUÇÃO DE CAMARÃO EM AMBIENTE CONTROLADO NO PAÍS. COM BASE EM ENERGIA SOLAR, TECNOLOGIA DE PONTA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ESTA UNIDADE DE ENGORDA INSTALADA NO CADAVAL QUER PROVAR QUE É POSSÍVEL PRODUZIR DE FORMA MAIS SUSTENTÁVEL E ECONOMICAMENTE VIÁVEL, UM ALIMENTO QUE HOJE É QUASE TOTALMENTE IMPORTADO.

TRANSFORMAR CALOR EXCEDENTE NUM NEGÓCIO INOVADOR DE AQUACULTURA PARECE IMPROVÁVEL. COMO SURGIU A IDEIA?

Tinha um negócio que gerava muito calor e, em vez de o desperdiçar, procurei formas de o rentabilizar. Experimentei usá-lo em estufas agrícolas, mas a ideia não avançou. Foi então que me cruzei com a criação de camarão, um produto com elevada procura e que exige precisamente calor. Comecei a estudar o setor e percebi que havia ali uma oportunidade.

PRODUZIR CAMARÃO NUM AMBIENTE ARTIFICIAL IMPÕE VÁRIOS DESAFIOS TÉCNICOS. COMO CONSEGUIRAM ULTRAPASSÁ-LOS?

Foi um processo demorado. O camarão precisa de água a 28 graus, o que só conseguimos em ambiente fechado. Criámos uma maternidade, uma fábrica de ração e tanques de engorda em circuito fechado. Optámos pelo camarão vannamei, já bem conhecido na aquicultura, para reduzir riscos na fase inicial.

UM DOS ASPETOS DIFERENCIADORES DO VOSSO SISTEMA É O USO DE UMA MICROALGA QUE INTEGRA O CICLO DE ALIMENTAÇÃO E LIMPEZA DOS TANQUES. QUE VANTAGENS TRAZ ESSA SOLUÇÃO?

É uma solução muito eficiente. Em vez de renovar constantemente a água, criamos um ecossistema estável dentro dos tanques. É um ciclo natural, onde a água se mantém em uso durante sete a dez anos, sem necessidade de substituição. É uma solução ecológica e com enorme viabilidade económica.

E COMO MANTÊM ESSE EQUILÍBRIO ENTRE CAMARÃO E MICROALGA?

Recorremos à inteligência artificial. Um drone subaquático recolhe imagens dos tanques e, com base em algoritmos, conseguimos estimar a biomassa existente. Isso permite ajustar a ração e os horários, evitando excesso e mantendo a qualidade da água.

O CICLO DE ENGORDA É RELATIVAMENTE CURTO. QUE IMPACTO ISSO TEM NO MODELO DE NEGÓCIO?

Tem um impacto muito positivo. Cada ciclo de engorda dura cerca de 45 dias, o que nos permite fazer até sete despescas por ano em cada tanque. Isso significa uma produção contínua e previsível. Além disso, como conseguimos ajustar a densidade de camarões em cada tanque, podemos também responder com mais flexibilidade às encomendas, aumentando ou aliviando a pressão sobre um lote, conforme necessário.

A UNIDADE ATUAL TEM CAPACIDADE PARA 300 TONELADAS POR ANO. POR QUE RAZÃO ESCOLHERAM ESSE NÚMERO?

Foi uma decisão estratégica. Por um lado, é uma escala que torna o projeto economicamente viável. Por outro, permite-nos operar sem ultrapassar os limites que exigiriam estudos de impacto ambiental mais complexos. Este volume permite testar, ajustar e validar o modelo, antes de avançarmos para uma fase de replicação.

E É PRECISAMENTE ESSA REPLICAÇÃO QUE JÁ ESTÁ NOS VOSSOS PLANOS, CERTO?

Sim. Até 2026 queremos ter os quatro pavilhões de produção a funcionar. Depois disso, a ideia é criar unidades de engorda em diferentes pontos do país, ou mesmo noutros países. O modelo é totalmente replicável, desde que se garanta energia e acesso a água marinha. O objetivo é chegar a produtores locais que possam apenas fazer a engorda, tal como acontece noutras indústrias, como a do frango.

ENERGIA É UM FATOR CRÍTICO NESTE PROCESSO. COMO RESOLVERAM ESSE DESAFIO NUMA OPERAÇÃO TÃO EXIGENTE EM TERMOS TÉRMICOS?

A solução passou por combinar energia solar com uma inovação chamada “bateria de areia”. Trata-se de um sistema onde a areia é aquecida durante o dia com energia solar e depois liberta calor durante a noite. Isto permite manter os 28 graus constantes de forma económica.

A SUSTENTABILIDADE FOI PENSADA DESDE O INÍCIO OU SURGIU DAS DECISÕES TÉCNICAS?

Foi consequência das escolhas técnicas. Não usamos fármacos, a água é reaproveitada, a energia é renovável… Optámos sempre pelo que fazia mais sentido em termos de custos e essas soluções, por acaso ou não, acabaram por ser também as mais sustentáveis.

COMO FOI O PROCESSO DE LICENCIAMENTO E FINANCIAMENTO DE UM PROJETO PIONEIRO EM PORTUGAL?

O projeto foi bem acolhido desde o início. Obtivemos o primeiro título aquícola deste género em Portugal.

A Câmara Municipal do Cadaval apoiou-nos sempre, e a certificação como Startup deu-nos acesso a fundos do MAR 2030 que foram fundamentais para montar a estrutura de maternidade, ração e engorda.

HÁ PLANOS PARA ABRIR O ESPAÇO AO PÚBLICO?

Sim. Estamos a preparar um quinto pavilhão para visitas e demonstrações. Os de produção têm acesso muito restrito, por biossegurança, mas nesse espaço vamos mostrar como tudo funciona, com tanques transparentes e unidades mais visuais.