SPNR – “CUIDAR DO CÉREBRO É CUIDAR DO FUTURO”


PARA ASSINALAR O DIA MUNDIAL DO CÉREBRO, ANA MAFALDA REIS, PRESIDENTE DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE NEURORRADIOLOGIA DIAGNOSTICA E TERAPÊUTICA – SPNR, DESTACA A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR DA SAÚDE CEREBRAL EM TODAS AS FASES DA VIDA E O PAPEL ESSENCIAL DA NEURORRADIOLOGIA NA PREVENÇÃO E NO DIAGNÓSTICO PRECOCE DAS DOENÇAS DO FORO NEUROLÓGICO.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE ASSINALAR, NO DIA 22 DE JULHO, O DIA MUNDIAL DO CÉREBRO E O QUE REPRESENTA, PARA SI, O TEMA DESTE ANO: “SAÚDE CEREBRAL PARA TODAS AS IDADES”?

A Federação Mundial de Neurologia (WFN) decidiu, em 2014, criar o Dia Mundial do Cérebro a ser celebrado como forma de sensibilizar internacionalmente para o cuidado e atenção para com um órgão, o cérebro, que é essencial, não só como o nosso órgão mais complexo e determinante – regula emoções, memória, movimento, pensamento e identidade, mas também, e por isso, porque concorre para o conceito de saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS 1948). Cada ano é selecionado um tema nas diferentes patologias que afetam a humanidade e prioridades para minorar as consequências para a saúde global. O tema deste ano é “Saúde do cérebro para todas as idades”. Une pacientes, profissionais de Saúde, familiares, cuidadores, políticos e outras personalidades, e instituições nesse propósito, como o Conselho Económico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), que está alinhado com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS-3) e guiado pelo Plano de Ação Global Intersetorial da OMS (OMS-IGAP), privilegiando a força de um trabalho em equipa mundial.

Este ano, incide sobre a Saúde Mental e Prevenção, e representa uma oportunidade para reforçar a consciencialização pública sobre a importância de preservar e promover a saúde do cérebro ao longo da vida como um processo dinâmico. Recorda-nos que o cérebro necessita de proteção e estímulo desde a preconceção (com a saúde dos futuros progenitores), às primeiras fases de desenvolvimento durante a gravidez, passando pela infância, idade adulta e idade avançada, adaptando-se aos desafios de cada idade e ressalvando o nosso compromisso em proteger e promover cérebros saudáveis. Cada fase da vida traz desafios únicos, mas também oportunidades para proteger e estimular a saúde cerebral. É esta visão integrada, ao longo de todo o ciclo de vida, que hoje importa reforçar.

DE QUE FORMA SPNR CONTRIBUI, HOJE, PARA A PROMOÇÃO DA SAÚDE CEREBRAL EM PORTUGAL, NOMEADAMENTE NA VERTENTE DA NEURORRADIOLOGIA?

Na definição da OMS de saúde, está considerado o domínio cognitivo, sensorial, emocional e motor, salvaguardando que os indivíduos possam atingir todo o seu potencial ao longo da vida, independentemente da presença ou ausência de distúrbios. Otimizar a saúde do cérebro envolve abordar fatores físicos, ambientais e sociais, que não apenas melhoram o bem-estar mental e físico, mas também promovem o crescimento social e económico das populações.

Num país como Portugal onde, por exemplo, o AVC continua a ser a 1a causa de morte e incapacidade em Portugal e o custo económico e social das doenças neurológicas é crescente e transversal (com cerca de 200 mil pessoas por estimativa, a serem afetadas por quadros demenciais e aproximadamente mais de 8 mil casos de doentes com esclerose múltipla), este dia é um apelo urgente à prevenção e à ação, à literacia em saúde, ao diagnóstico atempado, educação, prevenção, estabelecendo mudanças e objetivos e promovendo a equidade nos cuidados, no apoio às famílias e a criação de um mundo onde cérebros saudáveis sejam uma prioridade partilhada. Neste dia é também ressalvado o papel da neurorradiologia, especialidade médica que permite ver o cérebro, não só na sua aparência (morfologia) como no seu funcionamento, em verdadeira ação e em transformação, tornando “visível o invisível”. Na linha do tempo, observamos as primeiras ideias sobre o cérebro com Hipócrates e Galeno, o dualismo mente-corpo de Descartes (séc XVII), o nascimento da neurologia moderna (séc XIX) e em 1895, à descoberta da radiação X a 8 de novembro pelo físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen, o que nos permitiu entrar no Século XXI com a era da imagem cerebral e com a emergência da inteligência artificial.

Somos a especialidade que tem que estar na linha da frente, quer no diagnóstico precoce de doenças do sistema nervoso, como no planeamento de intervenções. Através de congressos, formação especializada e colaborações nacionais e internacionais, a Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia (SPNR), criada em 1990, partilha conhecimento, impulsiona inovação e defende práticas baseadas em valor; promove a excelência em neurorradiologia — uma área-chave na medicina atual, com uma abordagem que liga qualidade, eficiência e resultados em saúde. Atua na formação, investigação e inovação tecnológica e científica nesta área crítica da medicina.

A Neurorradiologia portuguesa tem um papel extraordinário, definindo-se como uma área independente do saber e da prática clínica, um exemplo de investigação com impacto real, abrindo caminho a estratégias de deteção precoce e intervenção nos processos neurodegenerativos. As convergências entre ciência de base, imagem e clínica são os seus alicerces e da medicina do cérebro.

A nossa missão é clara: melhorar o diagnóstico, promover formação e atualização, privilegiando cidadania ativa apoiada no conhecimento científico. Nesse sentido desenvolvemos também atividades conjuntas com outras sociedades científicas, universidades e escolas médicas e estabelecemos protocolos de colaboração no sentido de promover o conhecimento e o crescimento científico.

Recordamos, em 2017, o evento da Brain Week – Semana do Cérebro e da Neurorradiologia no âmbito do 13o congresso anual da SPNR, com sessões abertas à comunidade para partilha de conhecimento, promovendo os ideais da Neurociência e sensibilizando para áreas como a prevenção do AVC. Nessa iniciativa da SPNR, prestámos igualmente homenagem ao Prémio Nobel da Medicina portuguesa, Egas Moniz (1874-1955), com a celebração dos 90 anos da Angiografia Cerebral da qual foi pioneiro mundial. Em novembro deste ano, 2025, teremos, durante o nosso 20o congresso anual, a realizar no Funchal, mesas redondas e workshops abertos à comunidade sobre patologia vascular e doenças neurodegenerativas, entre outras áreas de interesse, reunindo especialistas de renome na área da neuroimagem, neurologia, neurocirurgia e investigação nas neurociências. Nos nossos valores pretendemos o envolvimento e aproximação com as diferentes comunidades científicas e sociais em particular com as associações representantes dos doentes neurológicos.

NOS ÚLTIMOS ANOS, QUE AVANÇOS CIENTÍFICOS OU TECNOLÓGICOS MAIS TÊM IMPULSIONADO A PREVENÇÃO, O DIAGNÓSTICO OU O TRATAMENTO DE DOENÇAS NEUROLÓGICAS?

A grande mudança aconteceu no tratamento do AVC isquémico com a criação da via verde do AVC e consequente promoção de técnicas, desenvolvimento de material de tratamento endovascular e organização a nível nacional de equipas multidisciplinares de urgência intra e extra-hospitalares que têm conseguido dar importantes respostas atempadas, modificando a sobrevida e o prognóstico dos doentes. Salientamos contudo que, embora a rapidez do diagnóstico permita decidir em minutos qual a melhor terapêutica — e pode salvar vidas ou evitar dependência, é necessário e importante continuar a trabalhar ativamente na prevenção primária.

Outro grande desafio foi também o diagnóstico precoce (pré-clínico) dos processos neurodegenerativos, condição para a qual concorreu, para além do crescente desenvolvimento tecnológico, que nos permite um diagnóstico mais precoce, a existência de inúmeros estudos que têm vindo a ser desenvolvidos com o objetivo de uma maior aproximação a dados que permitiram a criação de marcadores biológicos neste tipo de doenças. Este processo é fundamental para orientação da terapêutica e prognóstico, como no caso dos doentes com esclerose múltipla ou doença de Alzheimer com técnicas mais sensíveis que permitem diferenciar padrões e acompanhar a progressão. O desenvolvimento da inteligência artificial representou igualmente um avanço tecnológico que nos permitirá uma rápida evolução tecnológica e científica, nesta nova era da medicina do cérebro. A sua aplicação à imagem médica permite detetar alterações antes dos sintomas. Novas técnicas, como a ressonância magnética funcional, entre outras, revolucionaram a forma como mapeamos emoções, linguagem ou memória. A fusão entre imagem, genética, biomarcadores e inteligência artificial está a abrir caminho a uma medicina mais personalizada, mais preventiva e mais eficaz, permitindo diagnósticos mais precoces e precisos.

QUE MENSAGEM GOSTARIA DE DEIXAR AOS NOSSOS LEITORES PARA ASSINALAR ESTA DATA E SENSIBILIZAR PARA A IMPORTÂNCIA DE CUIDAR DO CÉREBRO AO LONGO DA VIDA?

A saúde do cérebro é um bem essencial — individual, familiar e coletivo. Viver com um cérebro saudável é viver com autonomia, memória, emoção e propósito. Cuidar do cérebro tem de ser um compromisso diário: exercício, descanso, alimentação, curiosidade, afeto e prevenção. Mas é também um compromisso social — com o acesso ao diagnóstico precoce, redes de apoio e políticas de prevenção.

A saúde do cérebro é assim um património que se constroi todos os dias com medidas saudáveis mas também com acesso à ciência, à tecnologia e a profissionais preparados. A SPNR está assim na linha da frente e continuará a trabalhar para garantir que a imagem médica continue a ser uma ferramenta de transformação na vida dos doentes e que a neurorradiologia seja uma aliada essencial na proteção do cérebro. Neste Dia Mundial do Cérebro, deixamos um apelo: mais do que tratar doenças, queremos preservar vidas com sentido.

“CUIDAR DO CÉREBRO É CUIDAR DO FUTURO — O NOSSO, O DA NOSSA FAMÍLIA E O DA SOCIEDADE COMO UM TODO.” – Ana Mafalda Reis, Presidente da SPNR