HÁ HISTÓRIAS EMPRESARIAIS QUE SE CONSTROEM COM VISÃO. OUTRAS COM RESILIÊNCIA. A DA URBEAZUL, FUNDADA PELA ARQUITETA CARLA DUARTE, ERGUEU- SE COM AMBAS E COM UMA CORAGEM RARA. DE UM TERRENO COMPRADO “SEM DINHEIRO MAS COM VONTADE”, ÀS DIFICULDADES PESSOAIS E CRISES ECONÓMICAS QUE QUASE PUSERAM TUDO EM RISCO, A EMPRESA CELEBRA TRÊS DÉCADAS MARCADAS POR REINVENÇÃO, ESPÍRITO FAMILIAR E UMA ABORDAGEM À ARQUITETURA QUE PROCURA, ACIMA DE TUDO, TRANSFORMAR VIDAS.
30 ANOS DE EXCELÊNCIA EM ARQUITETURA: O INÍCIO DA URBEAZUL
A história da Urbeazul confunde-se com a vida da arquiteta Carla Duarte, fundadora, mestre em espaços geriátricos e, acima de tudo, uma mulher que cresceu entre obras e estaleiros. Filha de um construtor, aprendeu desde cedo a ver potencial onde outros viam apenas terrenos vazios. “Sempre defendi a construção em altura – não por ousadia, mas por convicção”, afirma.
Quando terminou a licenciatura, já sabia que não queria ficar presa a uma secretária. Para si, “um projeto sem obra é como um livro não lido”. Era preciso construir, ver nascer ruas, edifícios, vidas. E foi essa urgência de criar que a levou, há 30 anos, a fundar a Urbeazul – grávida, sem capital, mas apaixonada por um terreno em Santa Cruz que decidiu comprar contra todas as probabilidades.
Daquele primeiro empreendimento de 12 lotes junto à praia, seguiu-se o primeiro grande cliente: o Carrefour. Lojas, postos de abastecimento, restauração em áreas de serviço, nove projetos de norte a sul do país – um ritmo intenso que consolidou uma empresa ainda jovem. A década inicial foi de expansão criativa: loteamentos, habitação, equipamentos sociais, restauração. “Só não fiz uma igreja… ainda”, comenta a nossa entrevistada.
Em 2004, outro salto: um novo loteamento com 26 lotes, novamente em simultâneo com a gravidez do filho Pedro. Depois veio a crise e com ela a necessidade de invenção. Para não despedir ninguém, Carla projetou em Portugal, Espanha e Angola, decorou casas, criou trabalho onde parecia não existir.
Mas o maior golpe viria anos depois: em 2020, tornou-se vítima de violência. “Fiquei sem chão”, admite. Perdeu quase toda a equipa, viu a empresa ameaçada, mas recusou o silêncio e o recuo. Foi o início de um novo ciclo. A filha e sócia, Rita Balsemão, deixou o seu trabalho em hotelaria e juntou-se á empresa. A empresa renasceu. Em 2024, faturou cerca de três milhões de euros e consolidou uma equipa jovem, talentosa e internacional.
“Trinta anos depois, não somos apenas uma empresa: somos uma história de resiliência, coragem e reinvenção”, resume.
MISSÃO, VISÃO E ADN: ARQUITETURA COM PROPÓSITO
A missão da Urbeazul permanece inalterada desde o início: criar valor através da arquitetura, liderar com empatia e ética, e contribuir para a felicidade de quem constroi, compra ou vive nos seus projetos.
Carla acredita que uma casa deve refletir qualidade de vida, proximidade à natureza, conforto, bem-estar. “Escolhemos sempre locais estratégicos, perto da capital mas com espaço para respirar e a menos de 15 minutos da praia”, confessa. Com uma abordagem que evita modas, a empresa aposta em personalização, harmonização dos espaços e sustentabilidade real, não apenas de rótulo. Acredita num equilíbrio entre eficiência energética, conforto e legislação, ajustando soluções para cada contexto.
VALOR PARA CLIENTES E INVESTIDORES: RENTABILIDADE CONCRETA
Na Urbeazul, “criar valor” não é slogan. É prática. A equipa analisa ideias, desafia clientes, propõe soluções diferenciadoras e antecipa custos e realidades financeiras. A experiência de 30 anos permite coordenar especialidades, fiscalizar, promover e construir com rigor. Enquanto promotores, destacam-se pelo posicionamento único: casas abaixo do valor de mercado, garantindo valorização rápida aos compradores.
Casos de sucesso? Apartamentos adquiridos por 157 mil euros e valorizados 20% em apenas nove meses.
PROJETOS EMBLEMÁTICOS QUE DESAFIAM LIMITES
Entre centenas de obras, existem três projetos que marcaram profundamente a Urbeazul:
A CRECHE DE SÃO JOSÉ, um “ovo” que simboliza nascimento e que exigiu alterar legislação e enfrentar avisos de perda de financiamento. Contra todas as previsões, avançou sem que a instituição perdesse um cêntimo.
WEST RESIDENCE, dois edifícios construídos em simultâneo num cenário de dificuldades de mão de obra, incumprimentos e preconceitos por ser mulher em obra. Um desafio superado com resiliência, longas noites e união da equipa.
PARQUE FONTE LIMA, na Lourinhã, um projeto sensorial centrado na água e natureza, onde nasce a nova “Casa da Cascata”, fruto de uma parceria intensa com o requerente.
SUSTENTABILIDADE: ENTRE A LEI E REALIDADE
Segundo Carla, “A sustentabilidade não pode ser só um rótulo bonito, porque nem sempre a legislação faz sentido”. Entre exigências que obrigam à importação de materiais e processos lentos das entidades, defende uma abordagem mais humana e contextual.
Na Urbeazul, cada projeto é analisado holisticamente: energias limpas, materialidades, simulações energéticas e avaliações de conforto orientam escolhas.
E há outra sustentabilidade essencial: a financeira. “Regulamentos podem tornar casas inviáveis. É preciso equilíbrio”.
O MERCADO, AS PESSOAS E AS TENDÊNCIAS QUE REDESENHAM CASAS
A empresa observa atentamente comportamentos sociais e hábitos familiares.
Da valorização de espaços exteriores à emergência dos open spaces, passando por condomínios fechados pela necessidade de segurança, tudo influencia os projetos.
Um dos empreendimentos da Urbeazul inclui até uma horta comunitária, pelas suas vantagens para a saúde mental, socialização e sentido de comunidade.
Hoje, a empresa trabalha para um público diversificado: 70% nacional, 30% estrangeiro, criando moradias na Costa de Prata com vista mar, piscinas e serviços complementares. Além disso, prepara um projeto modular para famílias jovens, com custos controlados e opções evolutivas.
DESAFIOS, APRENDIZAGENS E A REALIDADE DE SER MULHER NA CONSTRUÇÃO
Carla afirma que “Fazer arquitetura e construção em Portugal já é desafiante… sendo mulher, é completamente diferente”. Existem olhares duvidosos, perguntas sobre quem seria “o dono de obra”, e tudo isso acompanhou-a durante anos. Hoje responde com orgulho: “Somos nós. O empreiteiro somos nós”.
Essa vivência moldou a cultura da empresa: em vez de jantares de Natal, fazem viagens de equipa. Aprender, ver o mundo, absorver referências: do minimalismo japonês às ousadias dos Emirados, tudo tornou-se parte do ADN Urbeazul. E, curiosamente, foi sempre nos momentos mais difíceis que surgiram as maiores conquistas: “A inspiração sem transpiração não funciona. E concretizar é das maiores fontes de felicidade que existe”, sublinha.
O FUTURO: DOIS CAMINHOS, A MESMA IDENTIDADE
Nos próximos cinco a dez anos, a Urbeazul tem dois grandes focos estratégicos. O primeiro passa por projetos premium com identidade própria, como o condomínio diferenciador no centro de Torres Vedras e o Zambu: um conceito lifestyle com piscina, jardins, zona de praia, pickleball, pet corner, sauna e vistas mar na Praia da Areia Branca.
Já o segundo caminho será uma habitação modular para famílias jovens, com valores controlados e possibilidade de personalização através de add-ons. No âmbito de projeto, ambicionam reforçar parcerias, implementar o BIM em todas as especialidades e continuar a apostar numa equipa feliz, porque “não há eficácia sem felicidade”, afirma Carla.
E há ainda novos horizontes: “Talvez o nosso futuro passe também pelo Qatar… estamos a trabalhar nesse sentido”, conclui.

