COM MAIS DE 25 ANOS DE EXPERIÊNCIA NA PSICOLOGIA DA PERFORMANCE, ANA BISPO RAMIRES FUNDOU O GAPP PARA TORNAR ACESSÍVEL O TREINO DE COMPETÊNCIAS PSICOEMOCIONAIS QUE ANTES ESTAVA RESERVADO AO DESPORTO DE ELITE. EM ENTREVISTA À REVISTA QUALIDADE & INOVAÇÃO, SUBLINHA A IMPORTÂNCIA DE PREPARAR PESSOAS E ORGANIZAÇÕES PARA MANTEREM UM DESEMPENHO ELEVADO SEM SACRIFICAR A SAÚDE MENTAL, LEMBRANDO QUE QUASE UM EM CADA QUATRO PORTUGUESES VIVE COM UMA PERTURBAÇÃO PSICOLÓGICA.
FALE-NOS DO SEU PERCURSO PROFISSIONAL E DE QUE FORMA A SUA EXPERIÊNCIA CONTRIBUIU PARA DEFINIR A MISSÃO DO GAPP?
O GAPP (Grupo de Atuação em Psicologia e Performance) nasce de um percurso de mais de 25 anos sempre ligado ao estudo e à prática da psicologia em contextos de alta exigência. A nossa experiência foi construída ao lado de atletas, equipas técnicas, treinadores, artistas e organizações que lidam diariamente com a pressão de performar num patamar elevado. Ao longo desse caminho fomos apostando na especialização no treino de competências psicoemocionais, uma vez que o desempenho psicológico, à semelhança do físico, pode — e deve — ser treinado.
Essa consciência foi a semente que originou o GAPP: criar um espaço multidisciplinar que alia ciência, prática e inovação, com o objetivo de tornar acessível o treino de competências psicológicas que antes estava reservado sobretudo ao desporto de elite.
COMO DEFINE O PAPEL CENTRAL DO GAPP NA PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM CONTEXTOS DE ELEVADA EXIGÊNCIA, COMO O DESPORTO, A PERFORMANCE ARTÍSTICA OU AS EQUIPAS DE EXCELÊNCIA EM CONTEXTO ORGANIZACIONAL?
O nosso papel é o de um “laboratório aplicado”: recolhemos o que a investigação nos mostra, adaptamos ao terreno e transformamos em treino real, em ferramentas concretas que ajudam as pessoas a lidar com pressão, incerteza, frustração ou desgaste. Trabalhamos para quebrar a lógica reativa — esperar que surja uma crise para depois “apagar incêndios” — e construir uma lógica preventiva e sustentável.
No fundo, capacitamos pessoas e organizações para que tenham não só a técnica ou o talento, mas também a arquitetura psicológica que lhes permite, de forma sustentável, manter desempenho elevado sem sacrificar a saúde mental.
COMO ACREDITAM QUE O DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL PODE AJUDAR A QUEBRAR ESTIGMAS QUE AINDA EXISTEM EM TORNO DA SAÚDE MENTAL?
A celebração deste dia traz visibilidade a um tema não só emergente, mas urgente, ampliando uma mensagem simples, mas ainda difícil de interiorizar: a saúde mental é parte integrante da saúde, e não um apêndice opcional. Devemos, por isso, dedicar esforços a fortalecê-la diariamente, ao invés de a notarmos apenas quando se encontra ausente.
Recordemos que em Portugal quase 23% da população vive com uma perturbação mental, sendo a ansiedade a mais prevalente. Estes números não são estatística fria: representam vidas reais, impacto em famílias, em escolas e em locais de trabalho. Dar visibilidade a esta realidade ajuda a normalizar a procura de ajuda e a desmistificar a ideia de que falar de emoções é sinal de fraqueza.
Mais ainda, reforça a urgência de treinar estas competências para que possamos, no futuro, olhar para estatísticas mais baixas e vidas mais plenas.
NA VOSSA EXPERIÊNCIA, QUE SINAIS DE ALERTA AS PESSOAS TENDEM A IGNORAR E QUE DEVERIAM LEVAR MAIS A SÉRIO NO DIA A DIA?
Os sinais mais negligenciados são precisamente os mais “silenciosos”: a fadiga persistente, a perda de prazer em atividades que antes eram gratificantes, a dificuldade em dormir ou em desligar da pressão constante. Muitos normalizam a irritabilidade, a distração ou a sensação de vazio, como se fossem apenas fases passageiras que acabam por se prolongar indefinidamente.
Basta olhar para os mais jovens: quase 31% reportam sintomas depressivos e cerca de 20% das crianças e adolescentes vivem já com uma perturbação mental diagnosticada. Estes números mostram-nos que ignorar os sinais não é inofensivo — é abrir caminho para que se transformem em burnout, ansiedade ou depressão.
Reconhecer cedo estes sinais é tão essencial como, no desporto, identificar uma microlesão antes que se torne uma rotura incapacitante.
QUAL CONSIDERA SER O MAIOR DESAFIO ATUAL DA SAÚDE MENTAL EM PORTUGAL E QUE PAPEL PODE O GAPP DESEMPENHAR NA SUA RESPOSTA?
Portugal enfrenta um paradoxo: somos dos países que mais consome psicofármacos na Europa e, simultaneamente, temos uma das mais baixas taxas de literacia em saúde mental. Sabemos hoje que quase um em cada quatro portugueses tem uma perturbação mental, mas muitos não sabem identificá-la ou pedir ajuda. O maior desafio é este: deixarmos de olhar apenas para o alívio rápido dos sintomas e começarmos a investir na prevenção, no treino e na capacitação emocional. O nosso contributo é precisamente inverter este paradigma, mostrando que não basta “remediar” — é preciso preparar.
No GAPP trabalhamos lado a lado com organizações, tanto no contexto empresarial como desportivo, para que estas não sejam apenas palco de resultados, mas também ambientes onde se aprende a gerir energia, a lidar com a frustração, a gerar entusiasmo e a sustentar rendimento a longo prazo.
DE QUE FORMA CONTRIBUEM PARA TORNAR O TEMA DA SAÚDE MENTAL MAIS ACESSÍVEL NÃO SÓ A ATLETAS E ORGANIZAÇÕES, MAS TAMBÉM AO PÚBLICO EM GERAL?
Acreditamos que a acessibilidade nasce da linguagem. Por isso, usamos metáforas do desporto de alto rendimento para explicar conceitos complexos de forma simples. Não falamos de resiliência como um conceito abstrato, mas como um músculo que precisa de treino. Não falamos de burnout como uma “fraqueza”, mas como o equivalente a uma sobrecarga num atleta que nunca teve tempo de recuperação.
Para além disso, desenvolvemos programas de formação e mentoria que não se limitam a transmitir informação, mas convidam à prática — tal como num ginásio. E esta aposta ganha ainda mais relevância quando sabemos que quase 23% dos estudantes universitários em Portugal já têm um diagnóstico de doença mental, metade deles identificado apenas após a pandemia. Isto mostra-nos que precisamos começar cedo, treinar cedo, criar hábitos cedo — só assim conseguimos mudar o futuro.
QUE MENSAGEM GOSTARIAM DE DEIXAR À POPULAÇÃO NESTE DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL?
A mensagem é simples, mas urgente: a saúde mental não é um luxo, é a base da existência humana. Sem ela, teremos compromissos psicofisiológicos sérios a médio- longo prazo. É preciso compreender que, tal como ninguém esperaria correr uma maratona sem treinar, também não podemos esperar viver, liderar ou trabalhar em ambientes exigentes (como é hoje a nossa sociedade) sem treinar competências psicológicas.
Investir em literacia emocional, em autoconsciência e em estratégias de recuperação não é opcional — é estrutural. E, tal como no desporto, a grande transformação não vem de discursos inspiradores, mas do treino consistente, repetido e orientado.
Se cada pessoa e cada organização assumirem este compromisso, saúde mental e alto desempenho deixarão de ser vistos como opostos para se afirmarem como aliados — porque não há, em bom rigor, performance sustentável sem saúde psicológica.
COMO VEEM A EVOLUÇÃO FUTURA DO GAPP EM TERMOS DE SERVIÇOS, INVESTIGAÇÃO OU IMPACTO NA SAÚDE MENTAL E PERFORMANCE EM PORTUGAL?
Vemos o futuro do GAPP como uma ponte cada vez mais sólida entre ciência e prática. Queremos expandir a nossa investigação aplicada, para que cada programa de treino seja validado e mensurável — a recente parceria com a Universidade Católica Portuguesa (centro regional do Porto) é exemplo disso mesmo.
Temos o sonho de criar, com o apoio de empresas parceiras, uma comunidade que desenvolva projetos de capacitação aplicados ao desporto jovem, demasiadas vezes esquecido, mas que representa não só o berço dos atletas que poderão levar a marca de Portugal aos grandes palcos, como também dos cidadãos e líderes que moldarão o futuro do país nas mais diversas áreas. A nossa meta é crescer em profundidade de impacto.
PRECISAMOS TER A CORAGEM DE APOSTAR EM PROJETOS GERACIONAIS — INICIADOS AGORA, MAS CUJOS RESULTADOS SERÃO CELEBRADOS PELAS PRÓXIMAS GERAÇÕES. É TEMPO DE PENSAR EM E PARA A COMUNIDADE, COM OBJETIVOS CLAROS A MÉDIO-LONGO PRAZO, RECUSANDO O IMEDIATISMO PARA O QUAL SOMOS EMPURRADOS A CADA INSTANTE.

