NESTA EDIÇÃO DA REVISTA QUALIDADE & INOVAÇÃO, LAURA LUSTRE DIAS, PROFESSORA E DIRETORA PEDAGÓGICA DO COLÉGIO VERDE ÁGUA – ENSINO BÁSICO E ACADEMIAS, PARTILHA CONNOSCO UMA VISÃO APAIXONADA SOBRE UM PROJETO EDUCATIVO CENTRADO NO BEM-ESTAR, NA INCLUSÃO E NO DESENVOLVIMENTO HOLÍSTICO DAS CRIANÇAS. INSPIRADO NO MOVIMENTO DA ESCOLA MODERNA, ESTE MODELO ESTÁ ALICERÇADO NUMA PEDAGOGIA VERDADEIRAMENTE TRANSFORMADORA.
O COLÉGIO VERDE ÁGUA TEM DUAS VALÊNCIAS. PODE EXPLICAR ESSA ESTRUTURA AOS NOSSOS LEITORES?
O nome Colégio Verde Água é uma marca partilhada por dois colégios distintos na zona de Mafra. Um é Creche e Jardim de Infância, o outro – este onde estamos – é Ensino Básico e Academias. A origem está num primeiro colégio criado por duas pessoas com uma visão inovadora para o pré-escolar. Com o tempo, os pais dos alunos finalistas do pré-escolar, dessa escola, sentiram a falta de uma que desse continuidade ao modelo pedagógico já em prática e juntaram-se para abrir uma escola de ensino básico. Assim nasceu esta escola, que já conta com oito anos e vai do 1.o ao 9.o anos de escolaridade.
QUAL O OBJETIVO DO PROJETO EDUCATIVO DO COLÉGIO VERDE ÁGUA?
Desde o início, quisemos desenvolver um projeto altamente inovador assente em princípios socioconstrutivistas, centrados na formação pessoal e global dos nossos alunos, através do seu desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Inspiramo-nos no modelo pedagógico do Movimento da Escola Moderna, pelo que o aluno se encontra no centro do processo de ensino-aprendizagem, através de uma abordagem pedagógica diferenciada e centrada nas necessidades, interesses e capacidades de cada aluno. Por essa razão o professor torna-se num facilitador e orientador de todo este processo. Cada aluno tem o seu próprio caminho, e nós ajudamos a trilhá-lo, respeitando o seu ritmo, as suas necessidades e os seus talentos.
QUE INSTRUMENTOS E ESTRATÉGIAS UTILIZAM PARA GARANTIR ESSE MODELO?
Centramos o trabalho pedagógico em quatro dinâmicas importantes: projetos de trabalho cooperativo para desenvolvimento das aprendizagens curriculares, tempo de estudo autónomo e acompanhamento individual interativo, trabalho curricular em interlocução coletiva e o conselho de cooperação educativa. Em todas estas dinâmicas, o aluno é um ser participativo e ativo no seu processo de ensino e aprendizagem, onde nunca aprende sozinho, existindo uma “soma” de processos individuais, onde se aprende em cooperação. O Conselho é o motor que gere a vida da turma, onde se organiza, se planeia e se reflete. Os alunos distribuem tarefas, planeiam e avaliam a semana, partilham o que sentem, o que aprendem e até o que os incomodou, existindo uma reflexão ética para clarificação e construção de regras de vida para desenvolvimento sociomoral. Esta partilha é feita com respeito e empatia. Tudo isto desenvolve autonomia, responsabilidade e uma forte consciência de grupo. No fundo existe uma preparação para a integração numa sociedade global, através da formação de cidadãos com valores, atitudes e práticas adequadas.
COMO ARTICULAM O APOIO AOS ALUNOS COM AS DIFERENTES NECESSIDADES?
Temos cerca de 50 professores para quase 200 alunos – isto permite-nos olhar verdadeiramente para cada criança e mobilizar os apoios necessários. Os nossos professores e a nossa Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva trabalham com todos, não apenas com os que têm necessidades de saúde especiais, pois todos os alunos possuem ritmos e características distintas entre si, daí a necessidade de uma diferenciação pedagógica que é conseguida com o nosso modelo pedagógico. Para que este apoio funcione, a relação entre escola e família tem de ser muito estreita e baseada na confiança.
QUAIS SÃO AS DISCIPLINAS OU ÁREAS QUE MAIS DIFERENCIAM O VOSSO CURRÍCULO?
Para além do Currículo Nacional, que respeitamos, fazem parte da nossa matriz curricular exclusiva disciplinas como Filosofia (desde o 1.o ano), onde se desenvolve a educação emocional, crucial para um crescimento saudável; o Teatro, que ajuda a desenvolver a aptidão da comunicação; o Espaço Criativo e o Inglês a iniciar no 1.o ano de escolaridade. Oferecemos também as disciplinas de Projeto Artístico, Arte e Património, Laboratório STEAM, Educação Estética e Artística, Literacia Digital, Literacia de Informação, Identidade e Património Cutural, História em Debate, Património Natural, Sociedade e Ambiente e Saúde e Ambiente, que desenvolvem competências criativas e fortalecem a pertinência das aprendizagens curriculares e interdisciplinares, ajustadas às idades dos alunos e que progridem no currículo conforme o crescimento destes. A Filosofia, por exemplo, ajuda os mais novos a nomear emoções e, nos mais velhos, a refletir sobre cidadania, empatia e aprender a questionar e argumentar. Desenvolvemos também um Plano de Educação Artística e Expressão Criativa que visa desenvolver o pensamento crítico através da arte e a criatividade proporcionando a oportunidade de resolver desafios e não só aptidões artísticas.
COMO SE DÁ A ARTICULAÇÃO CURRICULAR ENTRE DISCIPLINAS?
A interdisciplinaridade é muito forte e transversal nos três ciclos. Por exemplo, o Laboratório STEAM está presente do 1.o ao 9.o ano, concretizando articulações com diferentes áreas curriculares como a Matemática, a Educação Visual e Tecnológica, a Físico-Química, a Educação Estética e Artística, Literacia Digital e Geografia. Além disso existem outras articulações curriculares nos ciclos seguintes que, tal como acontece em STEAM potenciam uma aprendizagem diversificada e aprofundada de conhecimentos e competências que se complementam de forma global. Isto é essencial para permitir aos alunos experimentar todas as áreas. Não somos uma escola só das artes, nem só das ciências. Queremos que todos tenham contacto com todas as áreas para poderem fazer escolhas conscientes no futuro.
O QUE SÃO AS ACADEMIAS DO COLÉGIO?
As Academias são atividades extracurriculares não obrigatórias, mas pensadas para responder às necessidades reais das famílias e ao desenvolvimento global dos alunos. Temos academias de Música (piano, guitarra, ukulele, bateria e em breve canto); Desporto (com uma Academia própria de Futebol, Desporto Escolar e uma parceria com Judo); Dança que é também uma parceria que desenvolve dança criativa e ballet; Teatro; Mindfulness; Artes; os The Inventors, que trabalham em parceria com o Colégio desenvolvendo dinâmicas nas áreas das engenharias, arte e criatividade; a Happy Code, que trabalha também em colaboração com o Colégio desenvolvendo competências digitais de programação e, por último, a Academia de Línguas com italiano, japonês, neerlandês, francês, espanhol, alemão e inglês, em parceria com o Centro de Línguas da Universidade de Lisboa.
QUAL O PAPEL DO ESPAÇO EXTERIOR E DO RECREIO NA VOSSA ABORDAGEM?
O recreio, para nós é visto como uma extensão da aprendizagem. Oferecemos um espaço livre, com poças de água, areia, casas de madeira, estruturas para trepar e natureza. Escolhemos não ter os espaços tradicionalmente estruturados, porque queremos que as crianças explorem o local, sejam criativas e brinquem com o que encontram. Também damos aulas ao ar livre, sempre que o tempo permite. Temos o projeto “CVA sobre rodas”, onde os alunos trazem trotinetes, skates, patins – aliás a aprendizagem de patins faz parte do currículo da disciplina de Educação Física. Trabalhamos a coordenação motora, o respeito pelo ambiente, a criatividade e a autonomia.
Neste momento está a decorrer um projeto de valorização dos recreios que está a ser pensado e executado com base nas sugestões dos alunos. Em Assembleia de Escola, as sugestões são debatidas e depois votadas por todos. Os alunos participam ativamente na construção do espaço que usufruem.
Brincar é um direito que respeitamos, por isso os tempos dos nossos intervalos são alargados.
A ALIMENTAÇÃO TAMBÉM É PENSADA PEDAGOGICAMENTE?
Sim. Toda a nossa alimentação é confecionada cá na escola, tendo em consideração as especificidades alimentares de cada aluno. É um aspeto a que damos imensa importância, porque faz parte do bem-estar e da saúde das crianças. E como em tudo o que fazemos, procuramos envolver também os alunos. Neste momento, por exemplo, estamos a reformular no nosso espaço exterior, com a ajuda deles, a nossa pequena horta, o que permite terem a noção da importância da forma como se plantam, crescem e colhem os legumes que comem na escola.
ESTE MODELO PEDAGÓGICO PREPARA OS ALUNOS PARA A TRANSIÇÃO E PARA O FUTURO?
Essa é uma das nossas maiores missões. Sabemos que os nossos alunos vão ter de sair e escolher áreas no ensino secundário e mais tarde poderão entrar numa universidade. Não somos apologistas de uma seleção, mas o sistema ainda o exige, por isso, temos de os preparar bem. Queremos que saiam preparados para qualquer escola e acreditamos que saem bastante bem capacitados. Ao nível do pensamento crítico, com habilidades como a resolução de problemas e a tomada de decisões. São capazes de utilizar várias ferramentas tecnológicas, possuem autonomia e autoconsciência e são responsáveis. Possuem a capacidade de se relacionar com o outro sendo empáticos e resilientes, interagindo de forma eficaz e desenvolvendo equipas de trabalho eficientes. São criativos e arriscam. Todas estas são ferramentas e competências que o presente exige para preparar o futuro. E quem sabe, um dia, este modelo seja a norma, porque pretendemos ser um exemplo de inovação pedagógica com sucesso e possível de implementar na maioria das escolas. Formar cidadãos com valores, talento e felizes no seu crescimento esta é a visão humanizada do ensino e da educação.

