DRª SARA FREITAS – “A SAÚDE MENTAL É A NOSSA CASA INTERIOR”

SARA FREITAS, PSICÓLOGA CLÍNICA, RECORDA O CAMINHO QUE A LEVOU À SAÚDE MENTAL E SUBLINHA A IMPORTÂNCIA DE PEQUENAS ESCOLHAS DIÁRIAS NO BEM-ESTAR EMOCIONAL. A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL, DEIXA UM CONVITE: REGRESSAR A SI PRÓPRIO E CUIDAR DA “CASA INTERIOR” ONDE TUDO COMEÇA.

SE TIVESSE DE ESCOLHER UMA METÁFORA OU IMAGEM PARA EXPLICAR A IMPORTÂNCIA DA SAÚDE MENTAL NO NOSSO DIA A DIA, QUAL SERIA?

Penso que a melhor metáfora para falar sobre a importância da saúde mental é a da casa interior. Considerando a saúde mental como um espaço que é interior e privado onde fazemos casa, nos refugiamos do mundo exterior, para onde podemos levar as nossas questões, analisá-las, tomar decisões e descansar, cuidar e ganhar forças para enfrentar o que está lá fora. A importância de ter uma casa interior acolhedora, confortável e tranquila pode fazer toda a diferença na forma como vivemos o nosso dia-a-dia, mas especialmente na forma como tomamos as pequenas e grandes decisões do rumo da nossa vida.

Quando a casa, por alguma razão, nos é um sítio desconfortável ou averso, com acumulação de violências ou ruído desinteressante, torna-se mais difícil estar centrado em si e tomar decisões alinhadas com aquilo que verdadeiramente nos pode fazer feliz. Sem poder estar dentro da casa em paz, cria-se uma desorientação e uma tomada de decisão que não é sustentada pelo nosso interesse mas por esses aspetos que nos incomodam. Com confusão suficiente, pode até nem ser possível entender qual o aspeto da vida que nos pode fazer feliz.

MUITAS VEZES FALAMOS DE HÁBITOS SAUDÁVEIS, MAS QUAIS SÃO AQUELES PEQUENOS GESTOS SIMPLES (QUASE INVISÍVEIS) QUE, NA SUA PERSPETIVA, FAZEM UMA GRANDE DIFERENÇA NO EQUILÍBRIO MENTAL?

Os hábitos base são muito importantes e já os conhecemos. Sono, alimentação, exercício, lazer. Hoje em dia existe um maior foco neste tipo de hábitos quase invisíveis e ainda bem. A saúde mental não é apenas mecânica mas orgânica e humana, pede transformação e crescimento. Cultivar a alegria através da presença, da conexão e do silêncio torna-se cada vez mais fundamental. Nas pequenas coisas, procurar o abrandar e o desfrutar intencional que não depende das circunstâncias mas da nossa intenção, priorizar o descanso e o cuidado, estar rodeado por aqueles que nos entendem, nos edificam e com quem nos divertimos, sentir-se útil e parte de uma comunidade, ter um tempo e um espaço dedicado à visita da casa interior, no silêncio. São questões que podem transformar como vivemos as nossas experiências, tanto nas tribulações como nas alturas de maior calma. A arte e a

cultura também podem contribuir. A criação e expressão artística é um canal que muitas vezes consegue definir e exteriorizar aquilo que o discurso simples ou formal não consegue. Não é uma questão de ser bom a pintar ou a cantar mas permitir a nossa expressão inadulterada.

Perseverar e encontrar-se no erro, divertir-se, é uma experiência negada a muitos. Permanecer com as coisas é importante, procurar a sua profundidade, aprender, conhecer e dar-se a conhecer. Na experiência da arte como legado cultural há um contacto connosco e com o outro. Podemos entender que aqueles que partilham as nossas dores e alegrias já estão à nossa volta.

O DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL CELEBRA-SE A 10 DE OUTUBRO. ACREDITA QUE ESTA DATA TEM UM IMPACTO REAL NA FORMA COMO A SOCIEDADE OLHA PARA ESTE TEMA OU DEVERIA SER APENAS O PONTO DE PARTIDA PARA UMA REFLEXÃO QUE PRECISA DE ACONTECER TODOS OS DIAS?

A data surge como um lembrete, talvez dando início a uma reflexão ou conversa cada vez mais necessária. Creio que hoje, com os problemas individuais e mundiais a que assistimos, cada vez mais o consumo, o imediato e a imagem, a superficialidade nos é apresentada como solução. Isto pode ser uma armadilha, especialmente para as gerações que já crescem dentro desta mentalidade. A urgência, a polarização e as influências externas invadem e anulam o contacto consigo mesmo, impossibilitando esta relação que nos informa sobre quem somos, o que nos move, o que queremos viver e como podemos fazê-lo.

É necessário reconquistar o espaço do indivíduo, aquele que pensa e sente de acordo com o seu próprio referencial interior, que pausa e reflete antes de responder, que procura entender o que pensa e sente e pode partilhá-lo com o próximo através do diálogo, com respeito à sua própria experiência e à do próximo. Isto também passa pela saúde mental e pela educação, pela vivência individual e partilhada.

SE PUDESSE DEIXAR APENAS UMA MENSAGEM INSPIRADORA PARA OS LEITORES SOBRE O DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL, QUAL SERIA?

Pode ser este o momento certo para iniciar a jornada de regresso a si.